Matéria publicada no Jornal A Notícia de 15 de outubro de 2009. | N° 555
Ela tem quase dez vezes a idade dos interlocutores, mas quem se importa? Quando conta histórias, organiza teatros e brinca com as crianças do segundo ano da Escola Machado de Assis, Alceste Silveira Calegari, 76 anos, mostra toda a alma infantil, construída em 56 anos de docência.
Foi com ela que muitas mãozinhas aprenderam a escrever. É com ela que um capítulo da história da profissão se delineia e se consagra. “Alfabetizar as crianças é, para mim, a mais sublime de todas as caminhadas pela vida. Sou apaixonada pela educação”, diz.
Aos 19 anos, deu a primeira aula e nunca mais parou. Quando decidiu ser professora, por influência da mãe, as crianças tinham um comportamento bem diferente. “Eram mais comportadas porque os pais eram mais rígidos. Mas também eram mais tranquilas e passivas. Estavam sujeitas à transmissão de conhecimento”, lembra.
O tempo fez com que tudo mudasse. Não só o tempo, mas a tecnologia e o acesso à informação. Na época em que concluiu o magistério, não havia internet e os livros eram objetos de poucos privilegiados.
Os jornais, que hoje são instrumentos de ensino nas mãos de Alceste, ainda não tinham se transformado em um aliado. A TV, como ela mesmo recorda, era preta e branca e para os ricos.
Mas foi justamente essa aparente falta de opção para entreter a garotada que levou a professora a construir a primeira boneca de pano e a investir em teatros e dramatizações. “O lúdico sempre fez parte das minhas aulas. As crianças gostam mesmo é de brincar. Por isso, estou sempre tentando envolvê-las nas minhas histórias. É uma maravilha porque a sala fica sempre agitada”, conta.
Claro que muitas coisas do passado fazem falta para o ofício de Alceste. Uma delas é a disciplina de educação moral e cívica, que ela acha que deveria ser obrigatória para qualquer criança em formação. “Hoje as crianças prezam demais pelo ter, por isso eu procuro trabalhar o ser por meio de fábulas e histórias. Essa disciplina faz falta porque ensinava coisas importantes de civismo e amor à pátria”, recorda. Hoje ela também dá aulas de ética e empreendedorismo para os pequenos.
Alceste percebeu uma evolução na forma como as crianças chegam às classes iniciais hoje em dia: espertas, astutas e vivas, muitas vezes semi-alfabetizadas. Esse é, para ela, um dos lados positivos da passagem do tempo. “Nunca mais precisei ensinar ninguém a pegar no lápis. Elas já sabem.”
Do futuro, uma certeza. “O trabalho ainda é um espaço de vida. Ver tudo o que as crianças fazem e produzem é muito gratificante, por isso vou continuar”.